O sacerdote na Semana Santa e a Semana Santa na vida do sacerdote

Texto escrito para a Tarde de Espiritualidade dos Sacerdotes de Palmas

A Semana Santa é formada por oito dias que mercaram para sempre a humanidade. Segundo o imaginário popular são os oito dias da “Semana Maior”, dos “Dias Grandes”, da “Semana Autêntica” e da “Semana da Misericórdia e da Clemência divina”. A Semana Santa está entre as maiores e mais intensas atividades pastorais de um sacerdote. Ela não se limita apenas a atividades pastorais. Ela é parte integrante do nosso ministério. Na cruz, diz o Evangelho, “Jesus inclinou a cabeça e entregou o seu espírito” (Jo 19,30). Assim como a Igreja, o nosso sacerdócio nasceu da Páscoa, juntamente com a Eucaristia, na última ceia. Ela está mais para o nosso ser do que para o nosso agir. A Semana Santa é programática, mas é muito mais paradigmática. Tanto assim que existe um fio-condutor, um cordão umbilical entre ambos. O nosso sacerdócio é uma verdadeira Semana Santa: um Getsêmani, um Gólgota, um Calvário e uma manhã da Páscoa.  Nada se iguala à Semana Santa em nossa vida e em nossa missão. Talvez se possa compará-la à festa do padroeiro. Mas a Semana Santa é muito mais do que simplesmente a festa de um padroeiro. Enquanto a festa do padroeiro é festa, a Semana Santa é vida, é trabalho e é missão.

A Semana Santa é a Semana do contraditório: de um lado, ela contém tudo o que Deus tem de bom e tudo o que Ele tem para nos salvar; do outro lado, ela contém tudo o que na sociedade há de pior: ódio, divisão, fanatismo, prevaricação, traição, indiferença, radicalização, ideologia, idolatria pelo descartável, ditadura do relativismo…

Os primeiros cristãos tinham medo, como nós, da cruz e da paixão de Jesus. A primeira imagem de Jesus, cultuada, sobretudo, nas catacumbas era a do Bom Pastor. A partir do Concílio de Niceia, em 325, é que se começa a usar a imagem de Jesus crucificado como símbolo do cristianismo. Hoje esta fase do passado está voltando novamente. Queremos um Cristo sem cruz. Por tantas experiências negativas, pelas quais passamos, temos medo de doenças, de cruzes, de sofrimentos e de mortes. E ainda mais, não gostamos de imagens nossas e de nossos entes queridos doentes, feridos e mortos. É até compreensível, do ponto de vista humano. Jesus também teve medo[1]. Infelizmente muitos querem um Cristo sem cruz, um cristianismo sem cruz, uma missão sem cruz e um sacerdócio também sem cruz. Não existem. É perda de tempo querê-los. Como falar de cruz para um mundo que teme e que foge da cruz? Como não fugir da cruz? Como ser assertivos nas palavras e nas ações diante das cruzes? Como não cair no pieguismo, no radicalismo, no rigorismo, no masoquismo, no racionalismo, no neopelagianismo e no neognosticismo? Como viver fervorosamente a Semana Santa? Como não apenas realizar atividades, mas vivê-la, exercendo nela o nosso ministério? O que fazer então? Eis a questão! Sugiro apenas três páginas independentes, mas complementares. É que o processo jurídico-existencial que Jesus enfrentou, que O levou à morte, comporta basicamente estes três elementos:

Primeira página: a paixão de Jesus foi vivida em oração e como oração. Jesus morreu na cruz rezando. A Semana Santa é um tempo privilegiado e típico de oração. Jesus começa a sua Semana Santa pela oração, como na última ceia. Com seus discípulos, Jesus saem da última ceia para o Jardim das Oliveira entoando salmos e cânticos (Mt 26,30; Mc 14,25). Segundo o Papa Bento XVI, este gesto de Jesus relembra o Davi de quem a maioria da autoria dos salmos é atribuída[2]. O caminho para o Getsêmini e dali para o Gólgota e para o Calvário foi regado por canto e pela oração. Esta oração de Jesus só foi interrompida com o falso beijo de Judas e com a chegada da tropa que o prenderam[3]. Cabe a nós, enquanto sacerdote, dar continuidade e terminar esta Liturgia, interrompida há mais de dois mil anos.

Aliás, Jesus já nasceu numa Semana Santa. Os seus pais tiveram que sair de casa, próximo aos dias do seu nascimento, para se recensear em Belém, para se cumprir as Sagradas Escrituras (Lc 2,1-6). No dia do parto, não encontraram hospedaria (Lc 2,7). Jesus Infante foi envolvido em faixas e deitado em uma manjedoura (Lc 2,7). As faixas, com as quais Jesus foi embrulhado, remete ao lençol, com o qual o seu corpo foi sepultado (Mc 15,46). Em seguida, seu pai e sua mãe, de noite e, às pressas, fugiram para o Egito (Mt 2,14). No entanto, em seu lugar as crianças de Belém foram assassinadas (Mt 2,16-18). Quando estive em Cairo, no Egito, o ano passado, fiz questão de ir a uma Igreja onde existe um poço que, segundo a tradição, nele Jesus foi higienizado e matou a sua sede. Na sua apresentação ao Templo, Simeão previu esta sua paixão no símbolo da espada que transpassaria a alma de Maria (Lc 2,34-35).

Segunda página: a paixão de Jesus é salvífica. Na Semana Santa nos deparamos com a dimensão salvífica da morte de Jesus. É preciso aceitar que para salvar a humanidade Jesus morreu na cruz. Não teve outra opção. Até tentou. Pediu ao Pai que afastasse dele aquele cálice. E imediatamente disse que se fizesse não a sua, mas a vontade do Pai (Mt 26,39). Não é fácil ver um filho chorar, pedindo ajuda a um pai. Corta o coração. Dói na alma. E, pior, sem nada puder fazer. É que os nossos pecados foram tão grandes que custaram a vida de Jesus. A paixão de Jesus é a paixão de Deus pelo mundo. Tanto assim que se pode dizer: “paixão de Cristo, paixão do mundo”! Jesus é prova de que nosso Deus é um Deus apaixonado por nós.

A paixão de Jesus é salvadora. Na hora mesma da sua paixão Jesus salvou a todos, salvando o ladrão arrependido. Não precisamos ser ladrões para sermos salvos por Jesus. Mas, arrepender-nos dos nossos pecados, certamente. A paixão de Jesus é em vista da ressurreição. Ela foi vivida e escrita, à luz da Páscoa. Tudo na Semana Santa é pascal. Inclusive a cruz. A cruz de Jesus é sempre pascal, do começo, ao meio e ao fim. E é à luz da Páscoa que devemos começar e terminar as atividades da Semana Santa. Sem Páscoa não tem sentido sofrer, trabalhar tanto, celebrar a Semana Santa.

E terceira página: a nossa Semana Santa é similar à Semana Santa de Jesus. Nossa missão começa aqui. A salvação da humanidade é propriedade exclusiva de Deus. Ninguém salva ninguém. Somente Deus salva. Mas nós somos intermediários desta salvação. Não salvamos, mas contribuímos com a salvação da humanidade. Há, portanto, uma cena na paixão de Jesus que precisamos parar, refletir, contemplar e rezar com ela e sobre ela. É aquela, na qual três personagens insistem em dizer para Jesus salve-se a sim mesmo (Mt 27,39-44; Lc 35-43). Esta é a tentação constante e permanente, pela qual todos nós passamos: querer salva a nós mesmos, a nossa pele e a nossa alma. Esta não é uma atitude cristão. É uma atitude do diabo (Mt 4,5-6). Jesus salva-se a si mesmo, salvado a humanidade.

Hoje a Semana Santa perdeu muito do seu significado, do seu sentido e da sua importância. Para muitos não passa de um feriadão. Cabe a nós, como missão, combater esta tendência. É este o nosso sacerdócio. Jesus, na cruz, consagrou o seu sacerdócio existencial (Hb 5,1-11). Na cruz Jesus consagrou o nosso sacerdócio. Portanto, quem é sacerdote tem que se preparar para sofrer como Jesus sofreu para salvar a humanidade. Não existe sacerdócio sem paixão e sem ressurreição. Nós somos a prova disto. Em nosso corpo, em nossa alma e no nosso serviço ministerial trazemos as marcas desta Teografia e desta Iconografia. Como bem disse São Paulo: “trazemos visivelmente em nossos corpos as marcar de Cristo” (Gl 6,11-18). A Igreja que somos nós, nasceu da Páscoa. E nós devemos completar em nossa carne o que ainda falta às tribulações de Cristo (Cl 1,24).

A vida de um sacerdote é como uma verdadeira Sexta-feira Santa, com Páscoa, pois existe sexta-feira santa sem Páscoa, como diz o Papa Francisco: “há muitos cristãos que parecem ter escolhido uma quaresma sem páscoa”. “Um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral”[4]. O sacerdote, na Semana Santa, é como Cireneu, como Verônica e como as mulheres que choraram e foram consoladas. O nosso encontro com Jesus crucificado é similar o encontro dele com a sua Mãe. Na ceia de Betânia seu corpo foi ungido para a sepultura (Mc 14,8). Ao dar o seu o seu corpo e o seu sangue, Jesus já saiu da ceia para a vigília noturna de oração, no horto das Oliveiras, morto. Quem assim faz, já não vive, mas já está morto. Rezar desta forma é também um tipo de paixão. O nosso celibato é o doar-se de nossa carne, como Jesus na última ceia.

Os impropérios ou as lamentações de Deus para conosco foram sintetizadas nesta bela canção, composta pelo padre Irala SJ: “Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Plantei-te como vinha nova, toda graciosa, nada havia igual.E castiguei os malfeitores que te perseguiam pra fazer-te mal. Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Abri o mar na tua passagem. E da escravidão eu te levei à paz.E fiz caminho no deserto para o lugar certo, para o bem total. E esqueceste o Amor.E entregaste o Senhor.O mundo inteiro se esqueceu da luz.E pregou seu Salvador na cruz. Que mais podia eu ter feito? Que mais podia eu te dar? Eu dei o pão da nova vida e a pedra ferida a sede apagou.E fiz para o meu povo eleito, os maiores feitos como ninguém viu. Que mais podia eu ter feito?Que mais podia eu te dar? Eu dei o sol da liberdade, o sol da verdade, onde nasce o amor.E dei o pão da caridade, na fraternidade do mundo melhor. E esqueceste o Amor.E entregaste o Senhor.O mundo inteiro se esqueceu da luz.E pregou seu Salvador na cruz”.

Como no Quinto Domingo da Quaresma, deste ano, João diz que Jesus era amigo de Lázaro, de Marta e de Maria. E que se emocionou e chorou a morte de Lázaro. A amizade social é a nossa marca. O melhor amigo de um sacerdote é outro sacerdote. Somos amigos sociais de quem mesmo? Por quem choramos ou choraremos nesta Semana Santa?

Vamos rezar este outro poema, escrito por Dom Carlos Alberto Navarro e musicado por Waldeci Farias:

  1. “Tu és digno de glória e louvor porque fostes por nós imolado. És Senhor dos senhores, ó Rei, e nó somos o povo chamado. Aleluia fiquemos alegres. Este é o canto nupcial do Cordeiro. E nossa Igreja é tua esposa feliz, teu amor primeiro.

Tu és, Jesus, Sacerdote e Cordeiro Imolado; Também somos, por Ti, sacerdotes, ó Bem-Amado.

  1. Sacerdote da Nova Aliança, edificas a Igreja de novo, perpetuas no altar tua cruz, alimentas o amor de teu povo. Corações são repletos de graça: és penhor de uma glória futura. O meio certo de ir a teu Pai, fonte d’água pura.
  2. Bom Pastor, que preferes servir e disseste: “eu não vim ser servido”. Tu quiseste buscar e salvar todo aquele que estava perdido. Frente ao lobo que rouba e dispersa, dás a vida por tuas ovelhas. Por tua voz te conhecem e a teu Pai com quem te assemelhas.
  3. Nosso único Mestre és tu que a celeste doutrina ensinas. E mandaste os apóstolos teus a pregar as palavras divinas. Nossos padres também são os mestres, sacerdotes luz e guia. E é por eles que podes viver na Eucaristia.
  4. Através de teus padres, Senhor, continua a tua presença, pelos campos, aldeias, cidades tu percorres a messe que é imensa. Pelos padres de novo nos chegam o evangelho com teus sacramentos. Suas mãos, seus lábios, seus pés se tornam os teus instrumentos.
  5. Todos nós fomos feitos também, sacerdotes da Nova Aliança e podemos por ti ofertar sacrifícios com grande confiança. Sempre damos assim nossos corpos como dádiva santa e agradável. E o nosso culto em espírito ao Pai sempre aceitável”.

E, para finalizar. Na Semana Santa, nada deve ser improvisado e nem apenas encenado. Não é teatro e nem espetáculo. É para ser comemorada, rememorada e revivida. A primeira palavra que Jesus pronunciou na cruz foi a palavra “Pai”, de onde deriva a palavra padre, com a qual nós somos identificados. E a segunda palavra foi “perdão”, com a qual nos identificamos na missão. Na morte de Jesus o véu do Templo rasgou-se do alto a baixo. E rasgado ainda está até hoje. Sobre isto, o Papa Bento XVI diz textualmente: “o rasgar-se do Templo significa que ficou aberto o acesso a Deus (…) Agora, o próprio Deus tirou o véu; no Crucificado Deus manifestou-se como Aquele que ama até à morte. O acesso de Deus está livre”[5].

A morte de Jesus na cruz, segundo o mesmo Papa, foi um acontecimento cósmico-litúrgico: “o sol esconde-se, o véu do templo rasga-se em dois, a terra treme, os mortos ressuscitam”[6]. Portanto, por tudo o que dissemos anteriormente, resta-nos, para finalizar, dizer como disse o Centurião, ao assistir a morte de Jesus: “verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39).

Para qual Semana Santa estamos nos preparando? Para uma Semana Santa apenas ritual e devocional ou para uma Semana vital e existencial?

Por uma Semana Santa existencial, contemplativa e orante para todos nós. Amém!

 

Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo de Palmas

 

 

[1] Joseph Ratzinger, Bento XV, Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até à ressurreição, Editora Principia, 2011, p. 130.

[2] Cf. Jesus de Nazaré, o. c. p. 124. Portanto, quando rezamos a Liturgia das Horas, sobretudo, as Semana Santa, estamos em comunhão com Jesus, o novo Davi.

[3] “Ali O beija o traidor. Ali. Ali todos os discípulos O abandonaram. Ali Ele lutou também por mim”, Jesus de Nazaré, o. c., 126.

[4] Papa Francisco, Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, Edições CNBB, 2013, n. 6 e 10.

[5] Cf. Jesus de Nazaré, o. c. p. 172-173.

[6]  Idem, o. c. p. 183.

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