“O que foi?”

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas

Muito conhecida a provocativa narrativa dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Muito usada pastoral e missionariamente. É o lema do Ano Vocacional da Igreja no Brasil: “corações ardentes, pés a caminho”. E o Papa Francisco se serviu desta nossa intuição para a sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões.
Nas primeiras semanas da Páscoa, lemos, pelo menos, duas vezes este Evangelho. A história destes discípulos é o paradigma e a parábola da existência humana. Como se diz, com frequência: “Se o coração não arde, os pés não andam”.
No miolo desta história há uma provocante pergunta de Jesus que funciona como uma espécie de divisor de águas: “O que foi?” (Lc 24,19). Depois desta pergunta, bastaram apenas seis versículos para vir o veredicto de Jesus: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram” (Lc 24,25). Em outras palavras, por causa da falta de inteligência e pela lentidão em crer, eles perderam a fé. Perder a fé é perder o encantamento. O impacto e a decepção com a morte de Jesus foram tamanhas que os fizerem perder a fé. Quando perdemos a fé, perdemos o norte e o horizonte. Estes são os dois fatores internos que os fizeram sair de Jerusalém para Emaús.
Passados mais de dois mil anos, cabe a nós hoje responder a esta mesma pergunta de Jesus: “O que foi”? A nossa resposta pode ser diversa, ter outros componentes, mas nunca poderá deixar de ter este núcleo, deixado por Jesus. Porque Emaús é aqui. Porque Emaús somos nós. Porque Emaús é assim. Como é o nosso Emaús? O que está nos levando a sair de Jerusalém e ir a Emaús? É a nossa falta de inteligência ou a nossa lentidão em crer? Ou as duas, igualmente? Fugir de Jerusalém é fugir de nós mesmos e fugir de Jesus. É seguir o caminho inverso que Jesus percorreu e deixou-nos como legado. É preciso inverter este caminho: voltar a Jerusalém.
Segundo Santo Inácio de Loyola “o ser humano foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim, salvar-se”. Para vivermos este tripé inaciano devemos nos descentrar de nós mesmos, sem, contudo, fechar-nos em nós mesmos. Este é o caminho da cruz. O caminho da cruz é o caminho do esvaziamento do ego. É o caminho da troca o “eu inflado” pelo “eu oblativo”: passar do “eu centrado” para o “eu des-centrado”. Em outras palavras, é estar fora de si. Os familiares de Jesus pouco habituados a tratarem com questão desta natureza, acharam que ele “estava fora de si” (Mc 3,21). Em certo sentido, Jesus estava fora de si. Não no sentido negativo ou pejorativo. Jesus não estava nem enlouquecido e nem possuído pelo demônio (Mc 3,22). Estava fora de si porque não se preocupava consigo mesmo, com seus próprios interesses e com seus problemas, mas com a vida, os interesses e os problemas dos outros. O problema não era Jesus. Eram os outros. Jesus estava frequentemente fora de si porque não procurava realizar a sua própria vontade, mas a vontade do Pai. Estava fora de si para seguir as inspirações do Espírito Santo. Estava fora de si quando fez de si mesmo o dom de Deus, por meio de um sacrifício mais puro, mais completo e mais perfeito: doou a própria vida, em resgate de muitos e para e remissão dos pecados.
Sem este deslocamento de eixo e este distanciamento de si não se compreende o que disse Jesus: “portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33).
Num mundo como o nosso, no qual as pessoas primam pelo seu ensimesmamento, ciosas de si mesmos e de seus pertences, se enclausuram, ingressam em suas ideias e em seus bens, sair de si, pode não ser uma tarefa fácil. Mas esta é a única saída razoável e plausível. Mesmo que pareça ser um estranho caminho. Saiamos, pois, do nosso Emaús tóxico e retornemos a Jerusalém, no qual Jesus deu-se a si mesmo. Que Jesus nos alcance na nossa estrada de Emaús e nos faça voltar a Jerusalém.

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