EU, A IMAGEM DO CRUCIFICADO, NO AMOR

       Na Igreja da Conceição, na cidade de Oeiras – PI, onde fiz o Seminário Menor, há um Cristo Crucificado. Até aí, tudo bem. Onde não há um Crucifixo, pendurado na parede? E em qual Igreja não há um crucifixo? A imagem do Crucificado é, no catolicismo, a mais conhecida, a mais amada e a mais venerada. Muito mais do que a do Ressuscitado.

       Foi-me pedido, pelo orientador do meu Retiro Inaciano, chamado corretamente, mais do que simplesmente retiro, de Exercício Espiritual (EE), que eu contemplasse a Jesus Crucificado, exercitando o meu espírito, como se exercita o corpo. Lembrei-me de que um dia eu fui modelo para o padre Angelo Maritano, de saudosa memória, esculpir o referido Cristo da Igreja da Conceição. Todas as musculaturas, as contradições e as contorções do Jesus crucificado são copiadas das minhas. Eu ficava, horas a fio, na posição de um crucificado para que o escultor passasse essas impressões para o Cristo que estava esculpindo. 

       Este fato sempre me serviu de inspiração vocacional. Durante meus anos de formação, me alimentei muito desta experiência. Porém, por motivos inexplicáveis, me caiu em desuso, incorporei outros modelos, mais convenientes, e me esqueci de modelar Jesus Crucificado na vida e na minha missão. Hoje me arrependo. Nunca deveria ter deixado isto acontecer.  

      Não quero ser modelo para ninguém, muito menos para Jesus. Não quero também ser petulante. Quero apenas deixar registrado este meu testemunho. Trago ainda em um dos meus dedos das mãos uma cicatriz. Tentando dar uma de escultor, feri meu dedo. Muito sangue derramado. Não igual ao de Jesus, na cruz.

      Hoje, reconheço que minha imagem, interna e externa, certamente se difere muito daquela que me serviu de modelo para Jesus, entre os anos de 1976 a 1978, que está exposta à devoção pública, na Igreja da Conceição. No entanto, passado mais de 46 anos, esta saudosa e saudável reminiscência me retorna à mente e ao coração, em Exercício Espiritual. Por que será então? Porque foi esta a imagem de Jesus, com a qual iniciei o meu processo vocacional. E é com ela que eu quero contar nos anos de vida que ainda me restam. 

       No discernimento que fiz, neste meu Exercício Espiritual, está confirmado que a imagem do Crucificado é a imagem de Jesus terreno que me resta a contemplar. Ela nos diz tudo do amor que Deus tem por mim. Foi por mim que Ele morreu na cruz. Muitos querem um cristianismo sem cruz. Muitos querem somente o Cristo da glória, do louvor e da vitória. Sem a cruz, Jesus não existe. É inútil querê-Lo; é perda de tempo buscá-Lo. Posso assumir a cruz com murmuração e resignação ou posso assumi-la como doação e gratidão. Sem ela, contudo, não posso viver.

      Neste sentido, é bom ouvir novamente o que disse São Paulo: “Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,22-25). 

       No dia da minha ordenação episcopal, no ônibus, a caminho de São Raimundo Nonato-PI, uma senhora, amiga minha, me presenteou com uma Medalha da Cruz de São Bento. A oração que acompanha esta Medalha é a seguinte: “A Cruz Sagrada seja a minha luz, não seja o dragão o meu guia. Retira-te, satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces, bebe tu mesmo os teus veneno!”. Desde aquele dia, a trago no meu peito. 

       Retirei do Evangelho da paixão de Jesus, segundo João, o lema do meu episcopado: “Sitio = Tenho Sede!” (Jo 19,28). Não por acaso, me ordenei bispo no dia Exaltação da Santa Cruz (14/09). Então não posso e não tenho direito de me queixar da minha cruz porque ela tece, como um fio, a inteira tessitura da minha vocação e da minha missão.

         Que o meu abraço à cruz seja com a mesma intensidade, com a qual São Francisco abraçou a Jesus Crucificado.

Dom Pedro Brito Guimarães 

Arcebispo de Palmas – TO

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