“Emaús é aqui! Somos nós! É assim!”: uma canção para o Brasil

Pelo que conheço, depois de Dom Carlos Alberto Navarro, de saudosa memória, bispos compositores, no Brasil, são poucos. Eu nem me coloco nesta seleta lista. Mesmo assim, compus, a pedido de Dom João Francisco Salm, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, o Hino para o Ano Vocacional da Igreja no Brasil.

Sou letrista, mais do que musicista. Minha vocação é escrever poemas que possam ser musicados, cantados e rezados, que toquem ou falem aos corações das pessoas. O que melhor determina uma boa poesia é a sua inspiração. A inspiração é o bem imaterial de qualquer obra de arte. Nenhum artista faz nada que preste sem inspiração. E eu, que nem artista sou, piora a situação. Sou apenas um arcebispo, como outros quaisquer do planeta. Não sei para os outros, mas para mim, compor é muito trabalhoso. Sempre me falta inspiração. E a inspiração me vem em doses homeopáticas, quase sempre na hora em que estou realizando uma ação inadiável. As pessoas geralmente pensam que é fácil compor música para o Brasil inteiro cantar. Mas não é. Trata-se de uma missão muito difícil de ser realizada. Se isto está acontecendo, é um milagre. Por isto, costumo dizer que o poeta é uma pessoa quase impossível de existir. Enquanto outros escritores, para defenderem suas ideias, escrevem uma tese ou um livro, o poeta tem, no máximo, uma página para exprimir seus sentimentos e seus pensamentos. Ainda mais para um País, como o Brasil, tão grande, de culturas e de gostos musicais tão diferentes e diversificados.

Diferentemente do que muitos pensam, sobretudo no campo litúrgico, o mais importante é a letra. A melodia emociona mais, cai mais no gosto das pessoas. Mas a Igreja, na liturgia, vive de suas letras, dos seus livros: Missal, Lecionários, Evangeliário, Rituais, Pontificais e outros mais. Eu escrevi o poema e quem compôs a melodia foi o padre Wallison Rodrigues. Ele é o craque na arte de compor melodia que enaltecem os meus poemas. Somos parceiros de diversas canções. Eu até me atrevo a dar palpites nas suas belas melodias, mas aceito também que ele dê seus palpites nas minhas letras. Usamos bastante o WhatsApp para estas trocas de saberes.

Com base no tema do Ano Vocacional – “Corações ardentes, pés a caminho” – comecei a compor a letra desta canção pela metáfora ou imagem das Estações Vocacionais. Gosto muito desta metáfora para falar de uma Igreja vocacional, em saída missionária e sinodal. Esta intuição me serviu de base para o restante do poema. Voltei-me para as Estações Vocacionais dos discípulos de Emaús. Eu considero a narrativa destes discípulos como a parábola da existência humana: decepção, desânimo, desolação, crise, fuga, perda de fé… Todo ser humano parece um pouco com os discípulos de Emaús. Desta parábola todos fazemos parte, temos o nosso lugar e o nosso papel. Por desolação e por crise de fé quase todos nós passamos. E fugimos para os “Emaús” de nossas vidas. O animador vocacional, Jesus, reverteu esta situação. Jesus é o modelo do animador ou da animadora vocacional.

O divisor de água, a meu ver, é quando Jesus entra em cena na conversa desses dois discípulos e lhes pergunta: “Que foi? (Lc 24,19) É como se eu ouvisse Jesus falando para mim, que estava em busca de inspiração. E a inspiração me veio. Desta inspiração de Jesus nasceram os refrãos desta canção para o Brasil: “Emaús é aqui!” “Emaús somos nós!” “Emaús é assim!” Não somente um, mas quatro. E por que não um, como é habitual, mas quatro refrãos? Pensei mais num estilo banner ou card, muito usado pelas mídias digitais e virtuais. Decidi, então, compor uma canção que não precisasse voltar ou retornar. Refrão, em italiano, é chamado de “ritornello”. Isto mesmo. Comumente cantamos uma estrofe e retornamos ao refrão. E assim por diante. Quis, diferentemente do usual, não haver retorno. Vocação é daqui para frente. A missão também. São mais para frente do que para traz. A vida também é daqui para frente. Pensando bem, no exato momento só temos, como certo, o presente. O passado já não existe mais e o futuro é mais fruto da mente e da imaginação. Partindo deste “que foi” de Jesus, compus também as quatro Estações Vocacionais, todas elas finalizadas com o: “por uma Igreja toda ela Sinodal”:

A primeira Estação Vocacional é a subida de Jesus ao monte para rezar e chamar os discípulos. A marca vocacional de Jesus é a oração. A oração é a primeira e a mais potente e eficaz ação vocacional. Reze, que terá vocação. Não reze e não a terá. Toda vocação é fruto desta noite vigilante e orante de Jesus. Se para os discípulos que eram mais santos do que eu, custou uma noite de insônia de Jesus, imagine quantas noites Jesus gastou para me chamar? A segunda Estação Vocacional é a descida de Jesus do monte. É preciso descer às profundezas das pessoas para falar-lhes de Deus. A Igreja no Brasil deve ser uma Igreja em saída, melhor dizendo, em descida às periferias geográficas e existenciais, como nos ensina o Papa Francisco. A terceira Estação Vocacional é a estrada de Emaús, quando Jesus, fazendo que ia seguir em frente, foi convidado e convencido, pelos discípulos, a ficar para a ceia, porque, segundo eles, já era tarde. A partir desta terceira Estação Vocacional parei e permaneci, como Jesus, nesta ceia que considero a base deste Ano Vocacional: “Vocação: graça e missão. Corações ardentes, pés a caminho”. E, por fim, a quarta Estação Vocacional é a volta dos discípulos de Emaús, à casa ou à comunidade apostólica, em Jerusalém, de onde nunca deveriam ter saído. E este retorno o denominei de missão. Não dá para pensar em vocação sem uma abertura missionária. Vocação sem missão é igual a café sem cafeína, a leite desnatado, a chá sem erva aromática e medicinal, e muito mais.  

É isto aí! Então, vamos “cantar e alegrar a cidade” (Vinicius de Morais), melhor dizendo, o Brasil, por meio das Estações Vocacionais, em uma Igreja toda ela Sinodal, pelos Emaús de nossa vida e de nossa missão.

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